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VERGONHA DE SER BRASILEIRO
César Medeiros (*)
O leitor Marco de Vito escreveu à revista IstoÉ (nº 1611) ridicularizando a pátria onde nasceu. Disse que mora há aproximadamente dez anos nos Estados Unidos e que retornou ao Brasil esperando presenciar alguma mudança histórica. Ficou tão decepcionado com o que encontrou que deu meia-volta. Segundo ele, as mudanças aqui acontecidas foram para pior.
Fico imaginando que mudanças esperaria encontrar esse senhor. Será que no país onde ele reside atualmente acontecem mudanças históricas freqüentes? Que tipo de mudanças seriam essas e qual seria sua freqüência? Duvido que, no final do século, tenham acontecido, em terras do Tio Sam, mudanças tão radicais como as que aconteceram por aqui, impossíveis de serem previstas até pelos mais otimistas.
Fomos capazes de tirar um Presidente da República. Aprovamos leis para proteger as crianças e os adolescentes, consideradas as mais avançadas do mundo. Pusemos em prática um código de defesa do consumidor, que tirou o brasileiro comum da condição de vítima indefesa nas mãos dos comerciantes desonestos.
Observamos, estupefatos, o ministério público investigando e infernizando a vida de ricos e poderosos, dentre eles muitos políticos safados, juizes ladrões e empresários sonegadores, colocando inclusive alguns deles na prisão e confiscando seus bens.
Presenciamos o embrião de uma guerra civil não declarada, com o MST invadindo terras para forçar o governo a demarcá-las e índios seqüestrando e expulsando brancos das suas reservas, mostrando à população que são os verdadeiros donos da terra e não aceitam ser tratados como cidadãos de terceira classe. Vimos policiais bandidos sendo presos e expulsos da corporação, a partir de denúncias apresentadas por cidadãos comuns. Tudo isso num país onde a maioria da população vive dentro da faixa de pobreza. É pouco?
Marco de Vito é um exemplo de brasileiro que envergonha seus patrícios. Ao invés de lutar por um Brasil melhor, fugiu para os Estados Unidos, onde, deitado em berço esplêndido, aponta defeitos, sem apresentar soluções. Seu ídolo é um americano, personagem do filme "O Patriota", que arriscou a própria vida e a vida dos seus familiares lutando contra as injustiças, coisa que ele, como oportunista que é, jamais teria coragem de fazer.
Imaginem se todos os homens de bem, verdadeiros patriotas, abandonassem o Brasil, ao invés de tentar mudá-lo. Como construiríamos um país do qual nos orgulhar? Quem puniria corruptos, assassinos e bandidos? Os americanos, por acaso?
Em suas declarações Marco também afirmou que tudo nos EUA foi lavado com sangue. Mas pelo jeito ele mesmo não deu uma única gota, nem do seu suor, para tentar mudar o que estava errado em nossa sociedade. Quanto sangue esse indivíduo, que tem vergonha de ser brasileiro, acha que precisaria ser derramado, para que as mudanças fossem do seu agrado, ao ponto de convencê-lo a voltar a viver no Brasil? Bom, não precisa responder, senhor Marco. Nós não queremos mais o senhor aqui. O senhor traiu sua pátria e passou para o lado daqueles que exploram seus conterrâneos. Se tivesse sido mais inteligente e menos egoísta, teria percebido que não é qualquer nação do globo que promove mudanças tão substanciais, em tão pouco tempo, sem banhos de sangue e sem precisar sacrificar a vida dos seus filhos.
Como se tudo isso não bastasse, esse "novo americano" ainda fez piadinha com a nossa independência. Só esqueceu que nós ainda não somos independentes, pois continuamos sendo explorados pelo país que ele, vergonhosamente, escolheu como pátria.
Se a "Solução do Aeroporto" que ele adotou fosse boa, o herói do seu filme predileto teria ido morar, provavelmente, na Inglaterra. E aí? Quem iria lutar e derramar sangue para que esse senhor pudesse viver como vive hoje, num paraíso capitalista?
Marco de Vito afirmou ainda em sua carta que não falará com suas filhas a respeito do país onde nasceu. Eu compreendo: se assim fizesse, elas iriam perceber que o pai era um traidor da pátria. Entenderiam também que, para ele, a palavra patriotismo não tem nenhum significado, a não ser nos filmes americanos.
Ainda temos inúmeras batalhas pela frente, até que o Brasil possa ser considerado um modelo de sociedade que satisfaça a maioria dos brasileiros. Mas, nesta luta, não vamos precisar de brasileiros como Marco. Indivíduos como ele não fazem a menor falta. Deveriam ser banidos por Decreto.
De minha parte, prefiro lutar pelo meu país aqui dentro, a sofrer humilhações num país racista que rejeita brasileiros e cuja riqueza vem da exploração das nações menos favorecidas. Eu jamais deixaria de ser cidadão brasileiro para me tornar um americano falsificado, como fez o ex-brasileiro Marco de Vito.
(*) Jornalista